Gigante adormecido

 

gigante adormecido1Apenas lutava tornar externo, para que o que lhe ia à alma se expandisse além de si mesmo… de seu corpo. Sofria por não saber como.

A sutiliza dos tons, odores, gostos e como tudo isto se imiscuía dentro de si, os prazeres que o vento ao rosto lhe permitiam ao ser beijado por este fantasma, enfim, tudo que lhe passava pelas sensações de Hume ou pelas cogitações descartianas ou, mais, pelo categórico kantiano – tudo que lhe fazia bem ao corpo e ao espírito queria fazer com que o mundo ao derredor sentisse tal e qual. Na mesma intensidade.

A dor. Ah: a dor. Ainda imerso nela, pouco percebia o poder da temperança que ela proporciona quando encontra fértil solo nos prazeres que acariciam as mais íntimas sensações. Mas é tão duro, tão sofrível. Sim, é. Mas inefável em seus efeitos. Basta ouvir a Sonata para Piano nº14, de Beethoven: um pedaço dos céus que atinge diretamente o principal – emociona o inabalável; acolhe o carente; consola o em sofrência. Comove o invencível. Coisas boas transformadas pelo tempero da dor.

Saindo da via principal, ele e ela tomaram acesso pelo sopé da serra e, na sinuosidade da vicinal que os levou em uma dança até o cume, pararam – menos por vontade própria, mais por vontade daquele imenso vale que se abria, no horizonte, imenso, tomado por verticalizada plantação de pés de café que gritavam para serem adorados, cultuados. Admirados.

Admirar é uma distinta forma de olhar: não se basta ao agente que olha, indo além – é um espantar-se com o algo amado, conforme latinamente nasceu (“ad – mirare”: um olhar, um se espantar).

Aqueles olhos verdosos se confundiam com a mansidão da paisagem. Ai, meu anjo… você pensa demais…. nos priva demais. Mas, momentos como estes, compensam tudo, confesso. Sim, compensam e nisto ela estava certa. A ternura sempre engole as dores e, após fazerem amor, se amalgamam e fazem nascer uma terceira, que é e não-é, tudo ao mesmo tempo, ternura e dor. Simplesmente nasce e a tudo transforma, sem perder-se do que a que veio: fazer-se comum, partilhar. Comungar.

Comungar sonhos e desejos, se temperados pelas dores e temores de uma vida já maturada, permite aspirar uma utopia terrena, algo inadmissível aos esterilizados pela frieza da vida, engolidos pela vertiginosa velocidade do dia-a-dia e àqueles que se deixam engolir pelo tempo, pela reificação e pelo egocentrismo que sempre desemboca no deserto do solipsismo – a sua mais narcísica deformação.

De lá, ambos podiam ver a principal rodovia e suas pequenas caixinhas motorizadas que corriam, constantes e em linha reta, contrastantes com a lentidão que só as curvas que contornavam os morros permitem, sensação combinada com o doce repouso do colosso que mantinha inerte, deitado: uma combinação de maciços geográficos que davam a impressão de humano em a dormir.

Este, meu amor, é o Gigante Deitado: não se sabe se mera coincidência de uma grata combinação da paisagem, escombros de um eventual templo sumério ou, ainda, ninho de criação de pequenos demônios negros… os sacis. Prá mim, ninho sim, mas de imaginação: um imenso bípede sem penas que descansa e sonha um sonho no qual repousa após imensas batalhas, que descansa seu enorme corpo sobre uma manto macio cobre uma pedra ainda maior que si mesmo, enorme, redonda e azul, perdida entre tantas outras numa infinitude sem fim.

Infinitude sem fim: eis o amor! Este sentimento típico dos mamíferos que, límbico, deixa de ser (sentimento) e se torna faculdade, já que opção de quem se permite amar, e se basta em si – embora não se baste, posto se permitir expandir sobre o que torna amado. Sim, ele é assim: parece carecer de complemento – parece transitivo -, mas não, não é: é pleno. Pleno, sim, ele é.

Dias atrás, um sábio poeta que certa feita teve uma pedra bem no meio de seu caminho, pequena perto das que dão volume e vastidão ao tal gigante que adormece e sonha, mas suficiente para esculpir, do fato, excelsa poesia quando os meros ordinários deste mundo somente veem praguejar, sabiamente já o dizia: amar é verbo intransitivo.

Pleno, sim, meu amor, concordo com você. A amo. Instransitivamente. Ponto.

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