Por uma Arquitetura

Drawing Compasses

Bem ali, diante dos dois, por detrás daquela cortina de vidro que compõe a fachada do escritório, no nono andar, estava a máxima poesia concreta de suas vidas. Fruto de uma vida de trabalho – resumo de todos os conceitos e práticas da arquitetura que tiveram que aprender nos e além dos bancos escolares  – foi desenvolvida a duras noites e dias, num total de mais de nove meses. Nove meses, três semanas e um dia entre a primeira conversa e a ligação do empreiteiro, dando conta da entrega da obra.

Lembra-se da paginação dos tapetes, que você tanto insiste que é Arquitetura?

Claro que me lembro! Perfeita… aquele jogo geométrico… cada traço… nossa! Isto sim é arquitetura…

Não, ela não concordava com aquilo: crente na filosofia de que, sim, a tapeçaria é arte, arte excelsa, não, não era Arquitetura. Nem na mais básica concepção: conceito que vem do grego (αρχιτεκτον), realizada por um construtor  (αρχι + τεκτον ) – uma espécie do que tenhamos como sendo uma mistura dos perfis de um mestre-de-obras, um arquiteto (como o consideramos hoje) e um engenheiro. Tudo junto e misturado.

Sob sua ótica, a Arquitetura se torna a mais rica das manifestações artísticas, talvez, mesmo, rica demais: Porque vai além do que nós, os arquitetos, possamos dominar: cria e influencia relações, provoca emoções e até mesmo afeta nossos comportamentos… ela é, assim, arte onipresente!

Para ele, uma tapeçaria também tinha esta capacidade.

Sim! A diferença está justamente em que é a Arquitetura intervenção criadora no espaço, que o adapta à nossa vivência, nossa vivência humana!

Ele pensava de outra forma: Intervenção no espaço?! Bem, engenharia, paisagismo também são.

Sim, são. Só que se distanciam por justamente ser, a Arquitetura, um tipo de intervenção, um tipo especial, artística e complexa, que só a mente de um arquiteto pode…

… mas um macaco, por exemplo, também pode intervir no espaço!

Sim, sob sua lógica. Pense diferente: é a forma, a maneira como intervém, como realiza, o ponto crucial, o nó-górdio: é intervenção criadora, fruto do telencéfalo evoluído de um profissional, de alguém que vive isto.

Hum… não sei. Penso que a tapeçaria…

… a tapeçaria tem seu campo na arte, tal a pintura, a escultura, a música: são também intervenções criadoras… podem, sim, ajustar relações, experiências humanas. O que as distingue da minha arte é que, realmente, não permitem ser criações espaciais: nem a escultura pode – a esta, não se permite interagir internamente – lhe basta somente o espaço externo, mesmo que algumas tentativas peremptórias, modismos mesmo, tentem se impor de forma diferente, experimental, tentando interagir com o observador. Não se pode interagir com uma peça na mesma multiplicidade dimensional que com uma sala de exposições, por exemplo: o usuário não é só observador na Arquitetura – é o ator principal sob todos os aspectos! De nada vale a genialidade do criador se não há alguém, um usuário, para experimentar sua obra arquitetônica.

Mas tapeçaria tem design… tem… Parou. Preferiu, então, se calar e a observar em seu longo discurso que ainda estava a lhe aquecer os ouvidos: ficava tão linda quando vida brotava de seus imensos olhos ao defender suas teses. Não havia mais ninguém: somente ela e seus pensamentos.

Exalava-se; se sublimava. Ahhhhh: ela e sua Arquitetura… um deleite. Meu deleite.

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