Entre aves e sonhos

Manso, plainava sobre um merengue coberto de laranjais que encarapinhavam o terreno. Ave belíssima, era um destes régios gaviões – só não sabia distinguir se era gavião ou falcão; certo era que não tinha toda a majestade de uma águia – que seduz os olhos do passageiro de janela a acompanhá-lo do ônibus grávido de efêmeros habitantes.

Soberano: seu bater de asas era eventual como eventuais eram suas lembranças da infância de fazer sofrimento aos pássaros. Prá quê? Prá que estilinguei tantas criaturas pro paraíso dos animais? Pro cemitério das aves? Agora, fazia sofrência a si.

Lembrou-se de que, salgadamente suado e ainda cheirando a pirulitos e balas, pedalava herculeamente em sua frágil meninice quando veio a sofrer queda – o garfo se desengarfou. Acordou liquidificado, sem saber se era céu, asfalto ou casa de belzebu, estirado, com as queimaduras nas próprias carnes moídas pela lixa dos pedriscos da rua. Sem problemas: percebeu-se vencedor. Aquela arara não iria me vencer… ah, não senhor! Todos os dias ela metia o bico onde não devia enquanto a gente voltava da escola, sempre deixando todo mundo prá trás naquele retão de meu deus. Não de mim, mais.

Arara! Arara! Arara!

Em casa: sova. Se já não bastasse a dor dos ralados, ainda por cima o couro de pinto de boi comeu solto! Só por andar de bicicleta… – justificou a si. Mas só com metade da história – a outra, da “sem a devida autorização dos pais”, bem, não lhe era assim tão importante: ficou no sótão das memórias, onde se esquece aquilo que não mais é útil e que irrompe violentamente à lembrança se tocado por outro alguém.

Mais de mês sem bicicleta. Só se fosse prá buscar pão e leite. Foi assim que aprendeu voluntariamente um dos fundamentos da doutrina cristã:  o altruísmo. Fazer o que meus pais pediam, com a caderneta de fiado esfarrapada e suada entre a palma da mão e a manopla do guidão… ahhhh… era a mais gostosa e completa parte do dia.

Mas nem só de pão e leite vive o homem. Também da dor. Uma delas: a dor da perda. Soubera que uma pedra, certeira, talvez das que lhe arrancara o couro em seu caimento, havia voado de uma baladeira de tripa-de-mico .  Ah… a arara! Espantou-se a ararinha para o paraíso das aves – onde continuam os sonhos aviários, elevando-se por terra.

As pernas do bando se entristeceram e perderam o gosto de girar.

O gavião… pois, renunciou-se em ser admirado: desviou-se para outros cantos; voou ensolarado. À medida que este se ia, na fundura do cristal do tripulado coletivo, olhos humanamente anoitecidos se cansavam; pontadas no peito que não se sabia se de saudade ou se da carne faziam-nos imaginar estrelas; viraram-se para o outro lado, o do corredor, que escorria para sonhos que habitavam gentes ou, por terem desaprendido a sonhar, maciamente dormiam sonos marmorizados. A dor, ai, se aprofundou.

E sonou.

Desencantou. Encantou-se no paraíso das aves, pedalando forte sua meninice. E a ararinha, que agora plainava sobre um merengue coberto de laranjais da memória, veio sobre si, olhando firme o horizonte. Soberana, só batia suas asas eventualmente. Como eventualmente batia o coração daquela criança-adulta.

Batia.

Sonhos que se perceberam meninos e meninas também têm direito de brincar no paraíso das aves.

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