Segurança Patrimonial: projetar prevenindo o medo

Drawing Compasses

Imagem: aqui. Acesso em 27/07/2016

Zygmunt Bauman, o sociólogo que liquefez nossa contemporaneidade, apregoa que, graças ao “medo derivado” (conceito no qual sustenta que interiorizamos temores, inseguranças e vulnerabilidades que, muitas vezes, não são reais, por força  da nossa sociedade; o medo que estaria à espreita aguardando o momento de nos atacar, obrigando-nos a um estado permanente de vigilância e, no limite, fonte da depressão pela nossa impotência em nos mantermos alertas a todo tempo; ou, ainda, nas palavras de Lucien Febvre: “medo sempre e em toda parte”…), trocamos a ideia de segurança (sensação intrínseca, em nosso cerne) por proteção (aquela que equipamentos e ambientes nos provocam ou sugerem). Casas, comércios, indústrias, bairros e cidades, enfim, a Arquitetura e o Urbanismo de hoje se revelam com elementos e traços que, aparentemente atraentes às diversas pessoas que passam ou interagem por eles, em verdade as mantêm protegidas daquilo que mais temos repulsa: os outros, justamente por serem estranhos a nós, materializando-se como o próprio rosto do medo – o “medo derivado” corporificado.

Obviamente que vivermos entre humanos não foi, é ou será sinônimo de pacifismo: bastam as narrativas greco-heroico-sanguinárias (tais as batalhas dos argonautas, bancadas por deuses que alimentam seus prazeres deleitando-se com as rinhas humanas, como a de Troia ou as de Ulisses), os atentados terroristas atuais, as guerras civis (na República Democrática do Congo, Síria, Egito, Nigéria, Líbia, Iêmen, Rússia e Ucrânia…), passando pela selvageria das Cruzadas, do sadismo da Santa Inquisição, das maldades das Grandes Guerras Mundiais. Das aventuras dos diversos carniceiros do poder (de Mao Tsé-tung a Stalin e Hitler – para termos a perspectiva de que, seja no ocidente ou oriente, onde haja humanos, há violência -, passando por Leopoldo II, Chiang Kai-shek, Slobodan Milosevic e Idi Amin Dada – de norte a sul do planeta).

Da cultura ocidental, há, ainda, evidência inquestionável no cânone bíblico: na gênese do Homem, os primeiros irmãos (Abel e Caim) já apresentam seu lado homicida – a violência avant la lettre. Em que pese optarmos pelos termos “revolta” e “revolução” para amenizarmos atos terroristas, genocídios e massacres em terra brasilis, não ficamos atrás: as guerras civis pela própria independência, a confederação do Equador, Cabanagem, Balaiada, Farrapos, Canudos, do Contestado, Inconfidência mineira, Tenentismo e Constitucionalista – sem entrarmos no mérito das Guerras com outras nações, da colonização e do escravagismo indigenista – em que muito se matou, torturou e mutilou com anuência e apoio geral e irrestrito.  Afora a selvageria praticada individualmente em cada um destes confrontos: ameaças, prisões arbitrárias, escravidão, repressões, humilhações, mutilações. Torturas. Violações. Mortes. Tudo extra-oficial, não-computado, por ferir anônimos.

Outrora denominado homo sapiens, fomos definidos posteriormente como homo faber, homo ludens, homo politicus, e, hoje, há quem apregoe um termo mais universal para nossa espécie, pela característica que nos acompanha por toda nossa existência: o homo violens. Isto em termos da espécie – lembremos que o coletivo só acontece se encontra fértil terreno nas partes que o compõe: eis que aqui surgimos, enquanto sujeitos, conscientes de nós mesmos e dos nossos atos. Creiamos: não somos espécie animal em fina flor que se cheire.

Por outro lado, temos uma porção intelectual que se desvela positiva e preocupada em, se não anular, diminuir os efeitos da violência e do medo, que muito pode contribuir para a nossa segurança e, considerando nossa contemporaneidade social, valermo-nos de proteção adequada e a baixo custo que a permita: o uso racional dos meios – inteligência que garanta segurança sem perder de foco o barateamento de custos.

Segurança depende de diversos fatores (e, dentre eles, dinheiro), sempre integrando tecnologias e gestão sistemática sobre três elementos cruciais: patrimônio, pessoas e informações (ou conhecimento). Ativos tangíveis e intangíveis estruturais, fundamentais portanto, fazem parte de todo e qualquer programa de necessidades no ato de projetar do arquiteto e do engenheiro, no planejamento da segurança física e de estratégias de mercado de qualquer gestor: forças impulsoras ou restritivas diante dos ambientes externo e interno dependem de infraestrutura, força de trabalho, aspectos econômico-financeiros, tecnologias, processos, informações e diversas outras variáveis disponibilizadas. Todas tendo, ao fundo, um só e mesmo tecido: segurança.

Neste espaço, é a Arquitetura e o Urbanismo, vistos e examinados sob a ótica da prevenção e da proteção ao delito (crimes e atos de vandalismo) e ao sinistro (incêndios e situações de risco), componentes fortemente considerados nos projetos e nos processos construtivos atuais desenvolvidos e operados por profissionais: daí a necessidade de começarmos pelo basilar, pelos princípios que povoam o universo da Arquitetura e Urbanismo na Prevenção do Delito (AUPD)[1] e da Segurança Contra Incêndios (SCI) em edificações e áreas de risco.

Segurança requer familiaridade com tais princípios, com tecnologias atualizadas e conhecimento acumulado ao longo da trajetória profissional. Além de expertise no segmento.

Segurança patrimonial é, aqui, nosso tema.

 

 

 

 

[1] Nos países de origem anglófina, há CPTED (Crime prevention through environmental design) que optamos pelo termo AUPD (Arquitetura e Urbanismo na Prevenção do Delito), mais geral (engloba, além de atos criminosos, vandalismo e pequenas práticas ofensivas ao patrimônio) posto que aquele se destina somente à prevenção de atos criminosos, e, em tese, capitulados em lei, portanto.

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