O arquiteto e urbanista e o crime – é possível inibir o infrator da lei?

Todo profissional possui, no mínimo, matéria-prima sobre a qual se debruça para moldar sua obra de arte. Afora questões filosóficas, a do arquiteto é o espaço que, sob as diversas interferências, apresenta-se como ambiente acabado, seja ele fechado, interno, ou não.

Tais interferências, neste sentido e de forma deliberada, influenciam comportamentos. Isto é historicamente sabido pelos mestres da arquitetura: da sensação de submissão ante as majestosas tumbas faraônicas (graças às suas imensas massas e volumes) à de inferioridade e contemplação em relação a um deus (como a vastidão da luz filtrada pelos gigantescos vitrais das verticalizadas catedrais góticas), passando pelo respeito hierárquico aos senhores burgueses renascentistas (em razão dos seus clássicos palazzos) ou da percepção de pertencimento igualitário à natureza do organicismo (tal a das residências usonianas de Frank Lloyd Wright). Ou, ainda, do peso da cortina de ferro russa que esmagava com seu concretismo brutal stalinista. Em verdade, a arquitetura bem pensada manipula. Para o bem. E para o mal.

Veja-se o comportamento escolar: sabedores de que temperaturas mais altas desencadeiam proporcionalmente maior excitação nas crianças, projetos escolares preveem o emprego de técnicas e conceitos que permitam um clima mais ameno que, por sua vez, suaviza relações. Centros de compras (shopping centers) simulam, com controle de quase todos os sentidos – mais detidamente dos sensíveis à luz -, a impressão de que o dia se estende, de que a noite não chega: consumir com excitação, ao máximo, enquanto a escuridão não desencadeia mecanismos humanos que imponham o sono.

Jane Jacobs, observadora e transformadora conceitual de cidades (portanto, do urbanismo), desenvolveu o ideário dos espaços defensáveis, uma teoria que vincula diretamente os campos da arquitetura e urbanismo com o da antropologia – a de que um ambiente que possua pessoas que o vigie, que zelem por ele, são potencialmente mais seguros. Teoria esta que desencadeou uma série de outras propostas que têm, como pano de fundo, a prevenção situacional do delito: eliminados os três básicos fatores que influenciam diretamente na decisão de alguém praticar um ato criminoso (o mínimo esforço para sua ação; a redução do risco concreto em sua consumação e/ou; a maior recompensa obtida com ele), o infrator da lei tende a desistir. Nesta perspectiva, portanto, a oportunidade faz o ladrão.

Da junção deste pensamento (reduzir os fatores favoráveis ao infrator, manipulando ambientes previamente por meio de conceitos, técnicas e materiais adequados), pode-se impactar diretamente nos indicadores criminais e, por conseguinte, nas vidas das pessoas, graças à relação entre ambiente e comportamento – esta é a essência do raciocínio da Arquitetura na Prevenção do Delito (APD).

Criminalidade se combate com inteligência, estratégia e bons fundamentos. A arquitetura e o urbanismo podem, se sob a responsabilidade de bons profissionais, com expertise, auxiliar na restauração do tecido das boas relações sociais em comunidade.

2 comentários

  • Calos Alberto Orvate

    Olá, aproveito para compartilhar uma produção própria que vai na direção da sua publicação, e se considerar oportuna pode utilizar.
    https://files.acrobat.com/a/preview/4441f788-72b4-41d1-8b5c-6c49b9bfa1b1

    Abraços Comunitários!

    • Olá! Obrigado pela contribuição: realmente, o conceito de cidades inteligentes ainda é pouquíssimo explorado por nossos urbanistas e pensadores afins. Tema com profundidade e, pela ampla permeabilidade, impacto nas relações humanas, carece de tratamento adequado e de boas fontes de consulta.
      Claro que vem a ajudar!!!
      Como disponibilizado, vou inserí-lo, sim. Obrigado pela ajuda!

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