“Ilíada”, de Homero, pode ou deve ser lida pelo fragmentado homem contemporâneo?

Considerado o desenvolvimento histórico, diversos foram os saltos do conhecimento humano que o fizeram cada vez mais atomizado, dividido: na erupção do homo faber; na dicotomia do universalismo da sabedoria ocidental grega em jônica e eleática; na divisão das ciências durante a renascença; na necessidade de maior especialização durante a revolução industrial. É, pois, o conhecimento compartimentado pela sociologia, economia, enfermagem, engenharia e outros saberes que, da prática, são agora validados nos herméticos laboratórios.

Diferentemente do hábito da leitura dos grandes livros – não os volumosos simplesmente pelo número infindável de páginas ou de pura beleza física, mas justamente imensos pela capacidade em fecundar mentes dispostas –, as ciências se fazem importantes pela capacidade de análise, de decomporem, de dividirem o objeto estudado para que melhor possa ser admirado: pelo isolamento. Por contraposição, é a literatura um imenso encontro de ideias nascidas das diversas experiências de tantos outros seres humanos que escrevem e que os leem. Unifica, portanto. Junta. Sintetiza. Justamente por isto, pelas infinitas combinações das possibilidades experimentadas ao longo da vida tanto de um (do escritor) quanto do outro (do leitor), é que ela, a literatura, transforma, constante e infinitamente, o ser. Neste sentido, é que a “Ilíada”, de Homero, se faz abundante.

Longe do tecnicismo que divide, a leitura desta incomensurável obra modelar pelo leitor comum (que comunga – menos no sentido da origem indo-europeia da palavra em si, de repartir, mais no sentido de ter em comum) e, portanto, com distanciamento deliberado daquele mesmo tecnicismo (da famosa “questão homérica”, da qualidade métrica da versificação, do tortuoso hexâmetro que ainda mais valoriza a qualidade do autor, da filologia greco-latina ou dos aprofundados estudos e bibliografia fartamente disponíveis na introdução apresentada pelo tradutor Carlos Alberto Nunes na quinta edição lançada pela Ediouro, de 2005, fonte e estímulo desta resenha) enriquece: unifica o aprendizado de uma civilização que legou a toda uma espécie pressupostos de vida a todos aplicáveis – tão aplicáveis que até hoje indestrutíveis.

Antecipara, em séculos, a essência ocidental que só no gênio maquiavélico de uma Florença, na transição entre os séculos XVI  e XVII, viria a se tornar evidente: a antitética da fortuna e virtú como componentes da trajetória humana – abstrações pós-medievais que, no concreto mundo prático grego, eram manifestas nas figuras dos deuses e deusas que, no enganoso bel prazer hedonista destes, mostra a fragilidade com que a existência se expõe ao longo de uma vida justamente por deliberação do autor: o condutor do fio existencialista dos heróis. E do homem.

Em verdade, longe de ser romance, é na epopeia que traça veladamente o que há de mais humano nos deuses e de mais animal nos homens – e note-se: epopeia narrada da perspectiva aristocrática-militar, puramente grega, avessa até mesmo ao popular Hesíodo (que a vida via da ótica do homem comum) e, mesmo assim, tão humana e humanizada, indistinta da origem ou herança de cada cidadão, posta universal que é -, e que, portanto, nos faz contemporaneamente tão distantes da sua perenidade, espelhando nossa falsa-beleza narcísica se decifrada com humildade.

Levada às telas cinematográficas, só pôde expressar-se parcialmente: dilacerada e fora do contexto homérico, não soube captar a essência (do coletivo e do universalismo que justificam a perenidade de uma civilização), e que, por ser homérico, é épico e coletivo – qualidades intrínsecas do povo grego -, não romântico e subjetivo como o fez o diretor da película (boa película se se considerada em si somente como distração e alívio às pressões diárias, como parte do aspecto vulgar hedonista faceiro aos olhos), cujo conteúdo não precisava esquartejar o cânon – talvez pela ignorância do tradutor das lentes atual que desconheça que entre os gregos era ausente ainda a concepção do cogito ergo sun descartiano – portanto, do homem moderno.

Uma nação que adote a leitura da “Ilíada” adota sabedoria que agrada ao que seu conto (casado com sua obra complementar, a “Odisseia”) objeta – gregos e troianos – posto que, enquanto literatura, unifica. Educa pensadores de todos os níveis. Por sua andragogia, ensina a viver em civilização, principalmente se trazida para a atual, cuja linguagem fragmentada pode, sim, deixar de ser fragmentadora como por ora ainda se apresenta.

Uma obra desta envergadura humana se presta mais do que como fundamento intelectual para o bom viver coletivamente; se presta como um compêndio sobre o qual se possa erigir os fundamentos de uma nação que se quer fazer civilização e legar algo de bom à humanidade.

Daí sobreviver e ainda nos ensinar tanto. Em e por tão pouco.

3 comentários

  • Calos Alberto Orvate

    Saudações!
    A Obra comentada realmente demonstra a necessidade humana em interagir de diversas formas, até mesmo na guerra a sociedade está na busca das relações de pertinência e empoderamento, mas ai vem a pergunta: qual o valor agregado nas conquistas?
    Seguido nosso acordo de parceria ai vai mais uma colaboração que desde já deixo ao seu crivo quanto a pertinência e usabilidade.
    https://files.acrobat.com/a/preview/c149fcd3-1c68-422a-896d-3b52806d9121

  • Aquiles contrasta grandemente com a sobriedade de Heitor, tambem grande heroi, que nao busca a gloria como Aquiles, mas luta pela seguranca de sua familia e de sua cidade, e a preservacao de suas raizes troianas. A condicao humana e magistralmente trabalhada por Homero, mostrando os dilemas mortais, as interferencias de instancias superiores e suas consequencias, personificadas nos deuses que tomam partido.

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