“MEDIDA POR MEDIDA”, a quem exerce liderança, vida pública ou deseja, ao menos, sobreviver no mar do social

Título oriundo do quadrigentésimo primeiro verso da peça, no qual o principal pensador shakespeariano sentencia aquele a quem se subsumia a fé de que haveria gestor ético e reto na condução da coisa pública – e que se provou, tal a qualquer coletividade humana, avesso, mesmo numa Viena feudal (portanto e em tese, controlada e controladora) –, “Medida por medida” é muita coisa pelo que diz: obra universal do cânone ocidental; escrito perene do Bardo; exemplo ecumênico de comédia sombria sobre a essência da distinção entre sexualidade e amor. E também pelo que não diz.

O pano de fundo secundário é o retorno da aplicação das leis que haviam, por indulgência de seu administrador máximo, o duque Vicenzo, sido colocadas de lado (detidamente a que bane do reino a prostituição enquanto comércio), resultando numa convivência repleta de excessos imorais, de devassidão e de fofocas. O duque percebe, assim, a necessidade do reavivamento daquelas de forma inflexível, reavendo as rédeas morais, o bom nome das instituições civis estabelecidas, a justiça comum e a mão forte do governante. O primário é deixar o exercício firme do poder àquele que é o exemplo dos valores de uma sociedade, àquele que, vindo a substituir o governante efetivo, o fizesse justamente por saber bem dosar o emprego do terror, bondade e honra. Caráter, enfim. Aos olhos de um duque e de seu principal conselheiro (Éscalo), que desejam verificar se o seu escolhido como eventual substituto, Ângelo (cujo nome, de grega origem grega, muito diz do personagem que o escritor quis construir), se mostra alinhado a tais regras ante à forma como seu povo o vê: o mais reto dos retos nas virtudes e, portanto, sábio aplicador entre vida, morte e misericórdia, pois puritano é seu perfil.

Nobre e honrado, o convidado inicial e educadamente declina, aceitando o convite – “…que seja posto à prova o meu valor…” – tão logo o Duque se lhe mostra a urgência em ter-se que ir a um outro reino, o da Hungria, a negócios.

Os fios da trama narrativa se alongam em diversas frentes: emprego literal das leis; foco na verdade absoluta; equilíbrio dos costumes; conselhos a quem governa e lidera; etc. Mas os da urdidura, que correm longitudinalmente à narrativa maior, são mesquinhos – uma costura que compõe, pelo entrelaçamento da trama e do urdume, o tecido das relações humanas que vale a aprendizagem a todos os que se aventurem ora a liderarem ora a levarem uma vida implacavelmente rígida ora a tentarem desvelar esta perspectiva reta, inclusive na propositura de mudanças ou ora, ainda, a acreditarem que o humano, enquanto dentro da sobrevivência social, valha a pena.  Lições a quem exerce funções de Estado (a necessidade da ação, da proatividade, da empatia e altruísmo, clemência, entendimento das fraquezas humanas e da impropriedade da aplicação inflexível das leis, além do maior mal a quem se dedica à vida pública: o abuso do poder) e de convivência ordinária (a virtude só é válida “…qual fôssemos tochas: não nos dá luz só para nós, seria o mesmo não a termos”, sendo, a maior, a do perdão – “…um atributo de Deus” e sem o qual corrói e abate o homem).

A começar pela exploração sexual isenta de impostos, que se contrapõe ao oficial betrothal (espécie de noivado da época, um compromisso pré-marital em que o dote já foi pago, só ainda não consumado pela falta das bênçãos religiosas ou da consumação em residir sob o mesmo teto), passando pelo perdão de crimes consumados, ato de Estado, em troca da entrega da virgindade, ato da natureza essencialmente humana e que se teima em a ocultar; pela penitência capital de um nobre substituído pelo pobre (uma forma de blindagem oligárquica sem que se deixe de pagar o que se deve); pela tentativa em se fazer as mudanças necessárias e dentro da retidão ética em detrimento ao que o coletivo elege moral (mesmo que, funcionando no subterrâneo social, tacitamente) e do total emprego da força deste contra aquele no sentido de, primeiro o demover de seu intento e, seguidamente, de o extirpar da face da Terra; pela responsabilidade individual pelas ações praticadas e, caso confrontem a ordem estabelecida (realce-se: principalmente a tácita, a subentendida), do preço a se pagar.

A distinção entre a realidade e a ficção fica por conta de um mecanismo literário amiúde aplicado na literatura universal: a intervenção divina (ou, no caso concreto, quase divina…) da esperança – tal qual Homero impunha com seus deuses que mudavam os rumos das histórias dos personagens humanos ao seu bel prazer e quando as regras do jogo cansavam. Aqui, em “Medida por medida” é a revelação do bom governante, do duque, que vivia disfarçado entre os seus e que pode enxergar se sua terra era bem servida de bons representantes do Estado, de uma justiça reta, de eventuais corruptos nominados que, até então, se apresentavam atores íntegros, e que a todos salva, a tudo e ao seu próprio governo e reino – uma prática, embora raríssima, registrada na história ao menos uma vez, com Harun al Rashid, que, enquanto califa do século VIII da era comum, assim procedeu – valendo-se do anonimato entre seu povo, oculto, para verificar se o que se propunha realmente chegava aos comuns (e ficticiamente registrado na famosa obra “As mil e uma noites”).

Educar nossos leitores, incluindo esta obra em seu repertório, é ensinar, de forma lúdica e leve, risível até, a natureza humana e como com ela lidar, sem se correr o risco de perder o leitor atual, ávido de conhecimento e tão avesso aos compêndios científicos da psicologia e das ciências sociais por sua robustez e necessidade de tempo para os apreciar. Orientá-los na condução das relações sob o manto da malícia, da sagacidade, da inteligência e criatividade, tão inerentes ao humano, sem, contudo, decair na sua corruptela que, em instâncias últimas, se deterioram na violência da intolerância, do maniqueísmo e das opiniões absolutas que assolam todas as civilizações em suas fases mais agudas. Ortodoxas, portanto. Radicais.

A mensagem que se sente, ao fim, é a de que, entre bordéis, corruptos, corruptores, fofoqueiros, gente honesta, misericordiosas e bons funcionários cumpridores da lei, resta, ainda, a esperança.

Se deuses existirem.

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